Versículo

    Donald  Anderson McGavran            

                               (1897-1990)

Um dos missiólogo comtemporâneos mais renomados é Donald McGavran, uqe se concentrou num tipo de “crescimento da igreja” que ultrapassa os conceitos tradionais das campanhas evangelísticas, mesmo quando apoiadas por custosas equipes e organizações evangélicas. Durante mais de meio século ele tem-se mostrado um ativista missionário dinâmico, vitalmente envolvido em evangelização transcultural, embora descontente com a tradiciona abordagem do posto missionário. Nas palavras de Arthur Glasser, um dos líderes da estratégia missionária, a “sua tese é a de que as ciências sociais podem associar-se à tarefa missionária. A pesquisa e a análise têm condições de re mover os obstáculos ao crescimento da igreja. Ele é de fato o Apóstolo do Crescimento da Igreja." O crescimento da igreja em si, ou seja, a evangelização centralizada basicamente na igreja, talvez pareça um tema pouco polêmico, sobre o qual todos podem concordar, mas McGavran introduziu um novo aspecto no assunto que o lançou bem no centro do mais ardente debate. De fato, as maiores discussões a respeito da estratégia missionária em décadas recentes focalizam as suas idéias. "Ele tem sido louvado e amaldiçoado", segundo David Allen Hubbard, "mas jamais ignorado".

          McGavran nasceu na índia em 1897, filho e neto de missionários. Apesar do precedente estabelecido diante dele, as missões no estrangeiro não foram uma escolha automática de profissão. Ele na verdade rebelou-se inicialmente contra a idéia de uma vida de dificuldades econômicas. "Meu pai já fez o suficiente para o Senhor", raciocinou. "Está na hora de lutar sozinho e ganhar algum dinheiro." Seus dias de estudante na Universidade Butler foram relativamente tranqüilos. Como presidente da classe do último ano e um orador temível, tinha todos os sinais de sucesso e uma carreira jurídica era a sua grande ambição. Mas isso foi antes de entregar sua vida a Cristo, e o Movimento Voluntário Estudantil o envolver. Suas aspirações mudaram. Depois da Escola de Teologia de Yale ele conheceu sua futura esposa numa reunião do MVE, casou-se, e embarcou para a   Índia; começou então uma vida aventurosa e produtiva que incluiu defender-se de um tigre em certa ocasião e de um javali em outra, detendo "quase sozinho uma epidemia de cólera", subindo ao Himalaia, andando pela seiva em ilhas remotas nas Filipinas, realizando seminários através da África, produzindo um filme e escrevendo mais de uma dúzia de livros. Porém, a aposentadoria não constava de seus planos. Em 1973, durante seu 76º aniversário ele escreveu três livros, deu aulas e realizou projetos de pesquisas com aparentemente nenhuma inclinação para diminuir seu ritmo de trabalho e nos anos que se seguiram sua vida agitada continuou." Em 1983 ele realizou seminários na Índia e no Japão no mesmo mês, em duas viagens separadas.

          A carreira missionária de McGavran começou em Harda, na Índia, como superintendente de uma escola de missão, servindo sob a Sociedade Missionária Cristã Unida ("United Christian Missionary Society"). Mais tarde serviu em outros cargos associados com a educação e serviços médicos, sendo também ativo no trabalho de tradução e evangelização. Em meados dos anos 30 seu trabalho missionário interrompeu-se por algum tempo, a fim de continuar seus estudos superiores, recebendo o diploma de Doutor em Filosofia na Universidade de Columbia.

        Durante outras duas décadas sua carreira missionária continuou concentrada na Índia, em cujo período ele se envolveu profundamente no estudo do fenômeno do movimento de massas, mas em meados dos anos 50 a missão passou a fazer uso dele em atividades mais amplas. Sua experiência prática e sua sede insaciável de aprender de outros missionários o fizeram compreender a necessidade de urna teoria missionária sólida, bem fundamentada, e ele começou a dedicar suas energias a essa disciplina. McGavran percebera de há muito que a obra realizada pelos missionários estava conseguindo bem pouco no sentido de alcançar o alvo da evangelização mundial, e ansiava para que fossem feitas pesquisas, a fim de desenvolver novos conceitos de estratégias missionárias. Nessa época ele começou a ensinar sobre missões em várias entidades cristãs e no ano de 1961 fundou o Instituto de Crescimento da Igreja ("Institute of Church Growth"), ao qual seu nome está ligado há mais de duas décadas.

            McGavran estudou as atividades evangelísticas de outros, a fim de descobrir princípios e metodologias que resultassem no crescimento da igreja. Método algum era sagrado ou além do escrutínio da investigação científica. Até mesmo a Evangelização-em-Profundidade de Ken Strachan sofreu um exame. "A pesquisa cuidadosa em diversas repúblicas latino-americanas", segundo C. Peter Wagner, "não demonstrou qualquer relação de causa e efeito entre os esforços feitos durante um ano pela Evangelização-em-Profundidade e os coeficientes de aumento do crescimento nas igrejas"." Para McGavran e seus discípulos, a real incorporação dos convertidos na igreja - não necessariamente o número de "decisões" - era o fator-chave na avaliação da metodologia missionária. Por essa razão, os métodos evangelísticos tradicionais foram testados. Se a evangelização das cruzadas resultava em crescimento da igreja, McGavran procurava descobrir o porquê e aplicava então os princípios descobertos em outros lugares.

        Através do seu Instituto de Crescimento da Igreja a pesquisa missionária desenvolveu-se mais plenamente do que em qualquer outro lugar ou época da história da igreja cristã. Ele fundou o instituto na faculdade Cristã North-west em Eugene, estado de Oregon, começando em 1961 com um único aluno.

        Em 1965 o instituto mudou-se para Pasadena e MeGavran tornou-se o deão- fundador da Escola de Missões Mundiais no Seminário Teológico Fuller. Em anos recentes, mais de cem missionários veteranos (corri seus conhecimentos inestimáveis) passaram anualmente pela escola e alguns dos melhores missiólogos do mundo se juntaram a ele em suas pesquisas e ensinamentos. Os teoristas de missões têm ficado bastante impressionados com seus pontos de vista modernos e científicos. "Ele sempre se orientou de acordo com um objetivo. Tratava com princípios e não métodos. Os métodos eram aceitos ou rejeitados... com base no que chamava de 'pragmatismo feroz'.  A pesquisa tornou-se seu principal instrumento.

         Apoiado em sua pesquisa, McGavran concluiu não só que os métodos tradicionais de evangelização em massa contribuíam muito pouco para o crescimento real da igreja, como também que o principal avanço missionário de todo o século XIX e grande parte do XX havia sido mal dirigido. A abordagem do tipo posto-missionário que predominou nas missões durante quase dois séculos simplesmente não permitira a expansão espontânea que tanto caracterizara a igreja primitiva. Embora os missionários tivessem trabalhado diligentemente para estabelecer igrejas indígenas, o cristianismo continuou a concentrar-se ao redor do posto missionário. "Essas igrejas de estação missionária", escreve McGa- vran, "não possuem as qualidades necessárias para o crescimento e multiplicação". A razão básica é que os convertidos são muitas vezes segregados de seus antigos relacionamentos sociais e passam a ter apenas comunhão com outros cristãos do posto missionário. Eles geralmente sentem-se "incomparavelmente superiores a seus parentes não-convertidos", exercendo assim uma influência limitada sobre os mesmos quanto à evangelização. O resultado é a criação não premeditada e mal orientada de uma nova tribo, uma nova casta, uma sociedade separada. Ele notou que em tais casos os convertidos tendem a depender excessivamente da missão para obterem emprego e serviços sociais e algumas vezes "extraem a fácil conclusão de que se mais pessoas se tornarem cristãs os recursos da mesma diminuirão", resultando em casos de "terem até desencorajado prováveis candidatos à conversão ao cristianismo".

        Qual é então a resposta? Movimentos populares, segundo McGavran - movimentos de tribos inteiras ou "unidades homogêneas" em direção ao cristianismo. Tais conversões "multi-individuais" em lugar de individuais, na opinião de McGavran, eram muito mais duradouras e estáveis para o crescimento da igreja. Tais movimentos tinham ocorrido no passado mas "raramente haviam sido procurados ou desejados". Na Índia, quase todos esses movimentos foram de fato "rejeitados pelos líderes da igreja e missão onde tiveram início", em parte devido "à preferência ocidental pela decisão individual" em vez da "de- cisão corporativa".

           O aspecto mais controverso do conceito do Movimento Popular de McGavran, chamado de Princípio da Unidade Homogênea, tornou-se sem dúvida ainda mais disseminado quando ele fez um discurso na sessão plenária do Congresso de Lausanne em 1974. Contra uma corrente de ideologia fortemente integracionista, ele argumentou que a consciência de raça não devia ser vista como um fator negativo, mas positivo no processo de evangelização mundial. "Não adianta", insistiu, "dizer que as tribos não devem ter preconceito de raça. Elas têm e se orgulham disso. Tal atitude precisa ser compreendida e transformada em instrumento a favor do cristianismo." McGavran não estava de forma alguma defendendo o preconceito racial, pois se opunha inflexivelmente ao mesmo. Mas insistia em que livrar-se do preconceito não deveria ser um pré-requisito para tornar-se cristão. Ele definiu dois "estágios do cristianismo": "discipulado" e "aperfeiçoamento". O primeiro estágio abrange os passos a serem dados para a pessoa se tornar cristã, e o segundo, o crescimento na vida cristã. Só no segundo estágio, acreditava ele, é que podia ser conseguido verdadeiro progresso no sentido de erradicar o preconceito racial."

       Um dos críticos mais acerbos de McGavran foi John H. Yoder, teólogo anabatista, que pôs em dúvida a sinceridade da abordagem do mesmo. "Eu julgarei que o missionário estivesse tentando me enganar", acusou ele, "se me dissesse depois de ter sido batizado que eu tinha de amar os negros, quando não fez isso antes". "Se não tivermos dito que a igreja cristã é uma comunidade integrada inicialmente", perguntou ele, "que autoridade teremos para convocar um movimento no sentido da integração mais tarde?"" A resposta de McGavran teria sido que exigir amor e oferecer nada menos que casamentos mistos são duas coisas diferentes.

        Outro crítico do Princípio de Unidade Homogênea de McGavran foi Rene Padilla, um missiólogo latino-americano. A se ver, a unidade homogênea é sub-cristã e pecaminosa: "A idéia é que as pessoas gostem de estar com aqueles de sua própria raça e classe e devemos portanto implantar igrejas segregadas, que indubitavelmente crescerão mais depressa. Fomos informados que o preconceito racial precisa ser compreendido e transformado em instrumento a favor do cristianismo'. Não há manipulação exegética que possa conciliar esta abordagem com o ensino explícito do Novo Testamento com relação à unidade dos homens no corpo de Cristo..."

          Em virtude de seus escritos prolíficos e suas idéias inovadoras McGavran tem estado no centro dos debates a respeito da estratégia missionária. Seus críticos "o acusaram de enfatizar a quantidade às custas da qualidade; de preocupar-se tanto com a salvação de alguns que negligenciou servir às necessidades humanas; de lutar pela expansão da igreja e ficar cego às necessidades humanas; de lutar pela expansão da igreja e ficar cego às necessidades da justiça social; e de confiar no esforço humano em lugar de no Espírito Santo".

          McGavran, segundo Arthur Giasser, é "mais amplamente citado" e "Mais fervorosamente debatido do que qualquer outro no campo das missões em nossos dias". Ele "perturbou completamente a antiga, tradicional e grandemente improdutiva metodologia missionária que dominou todas as missões... antes de 1955"." Em muitos aspectos, sua importância não se encontra tanto na exatidão de suas respostas como nas questões significativas que levantou, na paixão apostólica com que alterou as respostas aceitas e na maneira como (mais que qualquer outro) ele elevou o estudo das missões de simples cursos introdutórios em algumas escolas cristãs para um nível de estudos profissionais abrangente, em todo o mundo.


Bibliografia:

'...Até aos confins da terra.' Uma História Biográficas das Missões Cristãs - Editora: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova

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